Após decepções, testes com célula-tronco evoluem

Célula-tronco

Da Folha

As células-tronco, estrelas da pesquisa biomédica nos últimos 20 anos, ainda não se transformaram em terapias de eficácia comprovada para nenhuma doença.

Os pesquisadores que trabalham com elas reconhecem que, do ponto de vista dos pacientes, os resultados parecem decepcionantes, mas apostam que esse cenário pode mudar em breve.

“A empolgação exagerada foi consequência do desconhecimento”, argumenta Stevens Kastrup Rehen, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Mas, quando comparamos a situação das células-tronco com os dados históricos de qualquer novo remédio, não estamos mal na fita.”

As esperanças desmedidas e a polêmica em torno do tema começaram em 1998, quando cientistas americanos conseguiram isolar e multiplicar em laboratório pela primeira vez as chamadas CTEHs (células-tronco embrionárias humanas).

Tais células, obtidas a partir de embriões com poucos dias de vida, são capazes de dar origem a qualquer componente do organismo adulto, dos neurônios do cérebro aos músculos do coração.

Era natural, com base nesse conhecimento, pensar em aplicações médicas. Bastaria “ensinar” as CTEHs a se transformarem em um tipo específico de célula para reconstruir as regiões cerebrais devastadas pelo mal de Parkinson ou refazer um osso destruído por fratura, entre outras possíveis utilidades.

Havia, no entanto, ao menos dois grandes desafios. Um, de natureza ética, tem a ver com o fato de que não é possível obter as CTEHs sem destruir embriões humanos, motivo pelo qual a tecnologia ainda sofre forte oposição da Igreja Católica e de outros grupos religiosos.

O segundo desafio está ligado à dificuldade de controlar a transformação das CTEHs em outros tipos de células e fazer com que reconstruam partes do organismo afetadas por doenças.

Por outro lado, como todas as células do corpo possuem, em tese, o mesmo material genético, fazia sentido imaginar que, ao menos potencialmente, muitas delas pudessem dar origem a quase todos os tecidos do organismo, dispensando a necessidade de manipular embriões.

Tal ideia começou a ser testada com o estudo das células-tronco adultas, encontradas em locais como medula óssea ou cordão umbilical.

Ao mesmo tempo, cientistas como o japonês Shinya Yamanaka descobriram meios de transformar qualquer célula adulta em algo muito parecido com uma CTEH. São as chamadas células iPS, ou pluripotentes induzidas (“pluripotência” é o termo usado para designar a versatilidade quase ilimitada dessas células). Yamanaka foi premiado com o Nobel por seus achados.

HORA DOS TESTES

Só nos últimos anos é que as CTEHs e as células iPS finalmente passaram a ser testadas em pacientes humanos. Esses testes clínicos, como são chamados, normalmente começam com avaliações sobre a segurança de uma técnica (para verificar se ela não causa efeitos colaterais sérios, por exemplo), e só depois tentam determinar sua eficácia. Por enquanto, só houve testes de segurança com elas, a maioria ainda não concluídos. No caso das células-tronco adultas, há testes de eficácia acontecendo.

“Estamos progredindo no cenário clínico, portanto”, diz o médico Antonio Carlos Campos de Carvalho, da UFRJ. “Se vai dar certo, ainda não sabemos, porque há várias dificuldades a serem superadas, como a questão da permanência das células no órgão afetado.”

“Depois da frustração com a terapia genética [que modifica diretamente o DNA dos doentes], acho que os cientistas estão mais pé no chão”, afirma Alysson Muotri, pesquisador brasileiro que trabalha na Universidade da Califórnia em San Diego. “A demora para a chegada da técnica à aplicação clínica, para mim, reflete uma maturidade dessa área. Estamos muito mais cuidadosos.”

Como exemplos animadores dos testes que estão acontecendo agora, Muotri cita os resultados do uso de CTEHs para tratar doenças oculares, que parecem indicar a possibilidade de recuperar a visão de pacientes que não enxergavam mais. Para ele, a própria rapidez com que as células iPS estão chegando aos testes clínicos é motivo de comemoração: elas foram descritas inicialmente em 2007, e pacientes com mal de Parkinson dos EUA e do Japão já estão sendo recrutados para recebê-las.

Um motor importante para esses avanços provavelmente é o envolvimento da iniciativa privada nos países desenvolvidos, lembra Rosalia Mendez Otero, da UFRJ. “O Japão criou um processo paralelo de avaliação de estudos clínicos só para células-tronco, o que deve agilizar a tradução de conhecimento das bancadas de laboratório para o leito dos pacientes”, diz ela.

Ambos esses pontos acabam deixando os estudos no Brasil em desvantagem, já que aqui não é possível comercializar células. “Nosso sistema de aprovação de estudos clínicos é absolutamente atrasado”, lamenta ela.

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